Diário de ensaios e desenvolvimento do “Processo de Estudo para Fados e Afins”

➤ Dia 27/06/2016 (segunda feira)

Retomando o diário no final da tarde de hoje, observo a Mafalda no meu calendário:

  • Oi, Miguelito! Coisa boa na TV?

  • Acabei de ligar. Mas parece que se você passa desodorante, depois come salsichas e aí compra uma máquina de lavar roupas, só não é feliz se for muito idiota.

No período da tarde hoje trabalhei sobre o poema da Sophia de Mello e a Canção do Mar. Depois, fiz experimentos com a prosa de Fernando Pessoa, numa sugestão de Carlos Avelino, com quem tive um encontro na quinta feira passada (dia 23/06):

Fernando Pessoa, in ‘O Livro do desassossego’’.

VIAGEM NUNCA FEITA (a)

Foi por um crepúsculo de vago outono que eu parti para essa viagem que nunca fiz.

O céu — impossivelmente me recordo — era dum resto roxo de ouro triste, e a linha agónica dos montes, lúcida, tinha uma auréola cujos tons de morte lhe penetravam, amaciadores, na astúcia do seu contorno. Da outra amurada do barco (estava mais frio e era mais noite sob esse lado do toldo) o oceano tremia-se até onde o horizonte leste se entristecia, e onde, pondo penumbras de noite na linha líquida e obscura do mar extremo, um hálito de treva pairava como uma névoa em dia de calor.

O mar, recordo-me, tinha tonalidades de sombra, de mistura com figuras ondeadas de vaga luz — e era tudo misterioso como uma ideia triste numa hora de alegria, profética não sei de quê.

Eu não parti de um porto conhecido. Nem hoje sei que porto era, porque ainda nunca lá estive. Também, igualmente, o propósito ritual da minha viagem era ir em demanda de portos inexistentes — portos que fossem apenas o entrar-para-portos; enseadas esquecidas de rios, estreitos entre cidades irrepreensivelmente irreais. Julgais, sem dúvida, ao ler-me, que as minhas palavras são absurdas. E que nunca viajastes como eu.

Eu parti? Eu não vos juraria que parti. Encontrei-me em outras partes, noutros portos, passei por cidades que não eram aquela, ainda que nem aquela nem essas fossem cidades algumas. Jurar-vos que fui eu que parti e não a paisagem, que fui eu que visitei outras terras e não elas que me visitaram — não vo-lo posso fazer.

Ó SINO DA MINHA ALDEIA (também de Fernando Pessoa)

Ó sino da minha aldeia/ Dolente na tarde calma, Cada tua badalada/Soa dentro da minha alma. E é tão lento o teu soar, Tão como triste da vida, Que já a primeira pancada/Tem o som de repetida. Por mais que me tanjas perto/ Quando passo sempre errante, És para mim como um sonho. Soas-me na alma distante. A cada pancada tua/ Vibrante no céu aberto, Sinto mais longe o passado, Sinto a saudade mais perto.

[continuação de VIAGEM NUNCA FEITA (a)]

Eu que, não sabendo o que é a vida, nem sei se sou eu que vivo se é ela que me vive (tenha esse verbo «viver» o sentido que quiser ter), decerto não vos irei jurar qualquer coisa.

Viajei. Julgo inútil explicar-vos que não levei nem meses, nem dias, nem outra quantidade qualquer de qualquer medida de tempo a viajar. Viajei no tempo é certo, mas não do lado de cá do tempo, onde o contamos por horas, dias e meses; foi do outro lado do tempo que eu viajei, onde o tempo se não conta por medida. Decorre, mas sem que seja possível medi-lo. É como que mais rápido que o tempo que vimos viver-nos. Perguntais-me a vós, de certo, que sentido têm estas frases; nunca erreis assim. Despedi-vos do erro infantil de perguntar o sentido às coisas e às palavras. Nada tem um sentido.

HÁ UMA MÚSICA DO POVO (Mariza)

Há uma música do Povo, Nem sei dizer se é um Fado/Que ouvindo- a há um ritmo novo/ No ser que tenho guardado/Ouvindo-a sou quem seria/ Se desejar fosse ser/ É uma simples melodia/ Das que se aprendem a viver / Mas é tão consoladora/ A vaga e triste canção/ Que a minha alma já não chora/ Nem eu tenho coração/ Sou uma emoção estrangeira,/ Um erro de sonho ido/ Canto de qualquer maneira/ E acabo com um sentido.

[continuação de VIAGEM NUNCA FEITA (a)]

Em que barco fiz essa viagem? No vapor. Qualquer. Rides. Eu também, e de vós talvez. Quem vos diz, e a mim, que não escrevo símbolos para os deuses compreenderem?

Não importa. Parti pelo crepúsculo.

CAIS (Milton Nascimento)

Para quem quer se soltar invento o cais/Invento mais que a solidão me dá/Invento lua nova a clarear/Invento o amor e sei a dor de me lançar/Eu queria ser feliz/Invento o mar/Invento em mim o sonhador/Para quem quer me seguir eu quero mais/Tenho o caminho do que sempre quis/E um saveiro pronto pra partir/Invento o cais/E sei a vez de me lançar

[continuação de VIAGEM NUNCA FEITA (a)]

Tenho ainda no ouvido o ruído férreo de puxar a âncora a vapor. No soslaio da minha memória movem-se ainda lentamente, para enfim entrarem na sua posição de inércia, os braços do guindaste de bordo que havia horas haviam magoado a minha vista de contínuos caixotes e barris. Estes rompiam súbitos, presos de roda por uma corrente, de por cima da amurada onde esbarravam, arranhando, e depois, oscilando, se iam deixando empurrar, empurrar, até ficarem por cima do porão, para onde, súbitos, desciam (...), até, com um choque surdo e madeirento, chegarem esmagadoramente a um lugar oculto no porão. Depois soavam lá em baixo o desatarem-os: em seguida subia só a corrente chincalhante no ar, e recomeçava tudo, como que inutilmente.

Eu para que vos conto isto? Porque é absurdo estar-vos a contá-lo, visto que é das minhas viagens que disse que falaria.

Visitei Novas Europas e Constantinopolas outras acolheram a minha vinda veleira em Bósforos falsos. Vinda veleira espantais? É como vos digo, assim mesmo. O vapor em que parti chegou barco de vela ao porto [...] Que isto é impossível dizeis. Por isso me aconteceu.

Chegaram-nos, em outros vapores, notícias de guerras sonhadas em Índias impossíveis. E, ao ouvir falar dessas terras tínhamos importunamente saudades da nossa, deixada tão atrás quem sabe se naquele mundo.


Posts Em Destaque
Posts Recentes
Siga
  • Facebook - Black Circle
  • YouTube - Black Circle
  • Vimeo - Black Circle
  • Twitter - Black Circle